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O agente funerário além do caixão: Tiago Schietti comenta sobre o suporte humano que a morte exige

Tristan Corvain
Tristan Corvain 29/05/2026
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8 Min de leitura
Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti
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A profissão que começa onde o mundo prefere não olhar é também uma das menos compreendidas: a do agente funerário. Segundo Tiago Schietti, essa posição exige muito mais do que domínio técnico: exige uma forma específica de presença humana, capaz de sustentar famílias em colapso emocional sem agravar uma dor que já é, por natureza, insuportável. O tema é mais urgente do que parece e merece ser tratado com a seriedade que ainda lhe falta.

Contents
Quando o protocolo não alcança o que a família precisaPor que esse profissional ocupa um lugar psicológico único?O que muda quando a escuta faz parte do serviço?Como o setor pode evoluir a partir desse olhar?Um olhar que o mercado ainda está aprendendo a valorizar

Falar em apoio psicológico no contexto funerário ainda provoca estranhamento em boa parte do setor. Para muitos, o papel do agente se encerra na execução dos procedimentos: documentação, preparação do corpo, logística do velório. Mas quem já passou pela perda de alguém próximo sabe que os primeiros momentos após a notícia são caóticos e desorientadores, e que as decisões precisam ser tomadas exatamente quando a capacidade de tomá-las está no ponto mais baixo. É nessa janela que a qualidade humana do profissional funerário faz toda a diferença.

Quando o protocolo não alcança o que a família precisa

A formação tradicional no setor prioriza competências operacionais, e há razão nisso. Preparar um corpo com dignidade, conduzir um traslado com eficiência, organizar um velório dentro do prazo são responsabilidades sérias que exigem treinamento específico. O problema surge quando essa competência técnica não vem acompanhada de nenhuma preparação para o contato humano. Uma abordagem excessivamente burocrática, uma linguagem clínica demais, uma pressa que desrespeita o tempo do luto: cada um desses erros tem peso real sobre famílias que já estão no limite.

Conforme destacam profissionais com experiência no setor, a lacuna entre executar procedimentos e se comunicar com empatia é mais ampla do que o mercado reconhece. De acordo com Tiago Schietti, não se trata de transformar o agente funerário em terapeuta. A distinção é fundamental e precisa ser preservada. O que está em jogo é o desenvolvimento de competências relacionais básicas: escuta ativa, leitura do estado emocional do interlocutor e capacidade de ajustar a abordagem sem perder a objetividade que o momento também exige.

Por que esse profissional ocupa um lugar psicológico único?

Há algo que diferencia o agente funerário de qualquer outro profissional que lida com o luto. Médicos e enfermeiros encerram seu papel antes. Psicólogos e assistentes sociais chegam depois. O agente funerário está presente no momento exato da transição, quando a família ainda não processou a perda, mas já precisa assinar documentos, escolher urnas e definir horários. É uma janela estreita e delicada, e a qualidade da presença humana nesse momento deixa marcas que podem durar anos na memória de quem viveu aquele dia.

Nesse cenário, como pontua Tiago Schietti, a postura do profissional precisa combinar disponibilidade e discrição ao mesmo tempo. Estar presente sem invadir, conduzir sem apressar, informar sem sobrecarregar. Quem já passou por um processo de perda sabe distinguir, mesmo que de forma inconsciente, entre o profissional que estava ali para cumprir um protocolo e aquele que estava genuinamente presente. Essa distinção não é abstrata: ela influencia diretamente a forma como a família atravessa as primeiras horas do luto e, em muitos casos, os meses que seguem.

Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti

O que muda quando a escuta faz parte do serviço?

A introdução de práticas de acolhimento humanizado no setor funerário ainda é incipiente no Brasil, mas os resultados onde ela acontece são perceptíveis. Famílias que recebem um atendimento mais atento relatam maior sensação de amparo, menor desorientação nas decisões e, segundo estudos sobre luto, uma elaboração emocional mais saudável nas semanas seguintes. O impacto não é secundário. Ele é estrutural para a experiência de perda.

Sob essa perspectiva, profissionais como Tiago Schietti representam uma mudança de mentalidade que o setor funerário precisa incorporar de forma mais ampla. Não como diferencial de nicho, mas como padrão de qualidade. A morte é uma das poucas experiências verdadeiramente universais da vida humana, e o profissional que acompanha esse momento carrega uma responsabilidade que vai além do que qualquer manual operacional consegue descrever. Reconhecer isso é o primeiro passo para transformar a atuação funerária em algo que o Brasil ainda tem pouco: um serviço que cuida de quem fica.

Como o setor pode evoluir a partir desse olhar?

A capacitação em escuta ativa e manejo emocional já faz parte de algumas formações no exterior, especialmente em países onde a cultura do luto está mais integrada à saúde pública. No Brasil, o caminho ainda é longo, mas iniciativas isoladas mostram que o interesse existe. Cursos voltados ao agente funerário que incluem módulos de comunicação empática, gestão emocional e abordagem humanizada têm crescido discretamente, impulsionados por profissionais que perceberam na prática o que a teoria demorou a reconhecer.

Na avaliação de Tiago Schietti, o futuro do setor passa necessariamente por essa integração. Não porque seja uma tendência de mercado, mas porque a realidade das famílias exige. Cada atendimento funerário é único, carregado de história, de vínculos e de dor específica. Tratar todos com o mesmo roteiro operacional é uma forma de invisibilizar exatamente o que mais precisa ser visto naquele momento. A profissionalização emocional do agente funerário não é um luxo. É uma resposta à altura do que a morte pede.

Um olhar que o mercado ainda está aprendendo a valorizar

O reconhecimento do agente funerário como profissional de apoio humano está longe de ser consenso, tanto dentro quanto fora do setor. Há resistências culturais, limitações de formação e uma visão ainda predominantemente logística do serviço. Mas o debate avança, impulsionado por quem trabalha na linha de frente e entende, por experiência, que acolher bem não atrasa o serviço. Pelo contrário, torna tudo mais humano e, paradoxalmente, mais eficiente.

Conforme conclui Tiago Schietti, o agente funerário que desenvolve essa sensibilidade não apenas presta um serviço melhor. Ele sustenta, no silêncio de um dos momentos mais difíceis da vida, algo que nenhum protocolo consegue entregar sozinho: a certeza de que há alguém presente de verdade. Essa presença, discreta e competente, é o que transforma um serviço em cuidado. E é o que o setor funerário brasileiro ainda está aprendendo, lentamente, a oferecer.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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