Quando uma prefeitura convida crianças a imaginar o futuro de um rio, está fazendo muito mais do que organizar um concurso de arte. Está reconhecendo que a preservação ambiental começa pela formação de vínculos afetivos com o território, e que nenhuma política pública de longo prazo sobrevive sem o engajamento das gerações que vão herdá-la. É com essa lógica que a Prefeitura de Umuarama, no noroeste do Paraná, lançou o concurso de desenho ambiental com o tema Rio Piava, o futuro que eu quero desenhar, direcionado aos alunos do 5º ano da Escola Municipal Vinícius de Morais. Neste artigo, analisamos o que essa iniciativa revela sobre as conexões entre educação ambiental, participação infantil e proteção de mananciais urbanos, além do contexto mais amplo das ações que a secretaria municipal promove durante o mês de junho.
Por que o Rio Piava é o centro das atenções
A escolha do rio Piava como tema central do concurso não é arbitrária. O manancial é o único ponto de captação de água para o abastecimento de Umuarama, o que o torna um recurso hídrico de valor estratégico insubstituível para toda a população do município. A área que o circunda é classificada como Área de Proteção Ambiental, uma designação que impõe restrições de uso do solo e exige um monitoramento contínuo para garantir a qualidade e a quantidade da água disponível.
É justamente dentro dessa APA que a Escola Municipal Vinícius de Morais está localizada, o que torna seus alunos vizinhos imediatos do manancial que a cidade depende. Esse dado geográfico explica a escolha da escola como ponto de partida do concurso e revela uma inteligência territorial na concepção do projeto: as crianças que vivem mais próximas do rio são também as que têm mais condições de desenvolver uma relação cotidiana com ele, seja de cuidado ou de indiferença. A educação ambiental direcionada a esse grupo específico potencializa os resultados práticos da iniciativa.
O que um desenho infantil comunica sobre consciência ambiental
Há uma dimensão pedagógica profunda em pedir que crianças representem visualmente o futuro que desejam para um rio. Diferentemente de redações ou apresentações orais, o desenho acessa camadas de percepção que ainda não passaram pelo filtro do discurso adulto. Quando uma criança escolhe como retratar um rio, ela revela o quanto já internalizou sobre o estado atual do ambiente ao redor, seus medos, suas esperanças e o nível de consciência ecológica que a escola e a família já foram capazes de despertar.
Do ponto de vista da gestão pública ambiental, esse tipo de produção coletiva funciona também como um diagnóstico informal sobre a percepção que a comunidade escolar tem do manancial. Um conjunto de desenhos que mostram rios limpos, margens arborizadas e animais saudáveis indica que a mensagem de preservação está chegando. Imagens que retratam poluição ou degradação, por sua vez, sinalizam que as crianças observam o ambiente com olhos críticos e realistas, o que também é um resultado valioso.
A Semana do Meio Ambiente como programa integrado
O concurso de desenho é apenas uma das frentes de um programa mais amplo que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saúde, Proteção e Bem-Estar Animal de Umuarama construiu para o mês de junho. A programação incluiu plantio de mudas nativas no Bosque dos Xetá com alunos da rede pública, visita educativa ao aterro sanitário para debater a destinação correta de resíduos, plantio de mudas em áreas públicas do município, uma edição especial da Feira Lixo Que Vale e uma campanha de recolhimento de resíduos eletrônicos.
Essa diversidade de ações revela uma compreensão mais sofisticada do que é educação ambiental efetiva. O modelo que trabalha apenas com palestras e materiais impressos tem limitações reconhecidas pelos especialistas na área. Quando o município combina experiências práticas como o plantio de mudas, a visita ao aterro e a caminhada até a estação de captação de água, cria condições para que o aprendizado deixe de ser abstrato e passe a ter referência concreta na vida dos participantes.
A Caminhada Ecológica como ponto culminante
O encerramento simbólico da programação de junho é a 24ª edição da Caminhada Ecológica, prevista para o dia 14, com percurso que vai do Shopping Palladium até a estação de captação da Sanepar, no Rio Piava. A escolha do destino é carregada de significado: conduzir moradores fisicamente até o ponto onde a água da cidade é retirada do rio é uma forma de tornar tangível uma relação que para a maioria das pessoas existe apenas de forma abstrata. Quem bebe água encanada raramente pensa no manancial que a originou. A caminhada encurta essa distância de maneira literal.
O fato de ser a 24ª edição do evento indica que essa prática tem raízes firmes na cultura ambiental do município, o que é relevante porque a continuidade é o principal diferencial entre iniciativas pontuais e políticas de conscientização duradouras. Projetos que se repetem criam memória coletiva, e memória coletiva sobre um rio é, em última análise, uma das formas mais robustas de proteção que um manancial pode ter.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez